
A história do escritor maranhense Leandro Coelho de Sousa é marcada por perdas financeiras, dependência em jogos de azar e superação. Formado em Geografia e ex-empresário do setor farmacêutico, ele estima ter perdido cerca de R$ 1 milhão em apostas. Depois de perder o patrimônio, enfrentou a depressão e deixou o Maranhão para recomeçar a vida no Rio de Janeiro, onde passou a vender biscoitos na praia de Copacabana.
Leandro conta que começou a apostar durante um período de vulnerabilidade emocional, marcado por problemas de saúde na família e dificuldades nos negócios. Em um único dia, chegou a ganhar R$ 32 mil, mas acabou perdendo R$ 100 mil. Na tentativa de recuperar o dinheiro, continuou apostando e viu os prejuízos aumentarem.
“Eu tava num momento muito vulnerável, problemas de saúde na família, sérios problemas de negócio, de bens, e acabei me viciando por conta de problemas pessoais e financeiros”, relatou. Segundo ele, quando percebeu a gravidade da situação, já havia perdido todos os bens. A venda de biscoitos em Copacabana marcou o início de uma nova fase.
Como funciona a dependência em jogos
A experiência de Leandro mostra que os efeitos do vício em apostas vão além das perdas financeiras. A dependência pode comprometer a vida profissional, os relacionamentos familiares e a saúde mental. Em muitos casos, a pessoa continua jogando mesmo diante de prejuízos cada vez maiores, na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
Leandro afirma que o problema não pode ser tratado apenas como uma questão de escolha individual. Ele explica que o comportamento pode afetar a capacidade de controlar os impulsos e avaliar as consequências das próprias decisões.
A dependência em jogos de azar, também chamada de ludopatia ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição está associada aos mecanismos cerebrais de recompensa e pode levar a pessoa a repetir o comportamento mesmo quando ele provoca consequências negativas.
O terapeuta especialista em saúde mental Marcelo Costa explica que o ciclo entre ganhar e perder pode estimular os mecanismos de recompensa do cérebro. Segundo ele, a liberação de substâncias relacionadas ao prazer pode reforçar o comportamento e levar a pessoa a sentir necessidade de jogar novamente.
“Quando acontece a parada do jogo ou então perdas, esse mesmo prazer se transforma em uma situação de desconforto, onde a pessoa, pra voltar a ter o prazer, precisa jogar novamente, o que a gente chama de fissura”, explica o terapeuta.
Bloqueio de plataformas não encerra a dependência
O debate sobre a dependência em apostas também envolve as medidas adotadas pelo governo para restringir o funcionamento de plataformas online. Segundo Marcelo Costa, retirar os sites do ar não é suficiente para interromper o comportamento de quem já desenvolveu uma relação compulsiva com o jogo.
O especialista destaca que a recuperação pode exigir acompanhamento profissional, apoio familiar e mudanças na rotina. Entre as possibilidades de tratamento estão a psicoterapia, especialmente a abordagem cognitivo-comportamental, e a avaliação médica para verificar a necessidade de medicamentos.
A reconstrução também envolve reorganizar a vida financeira e emocional, além de buscar apoio para evitar recaídas.
Livro transforma experiência em alerta
Depois de enfrentar as consequências do vício, Leandro transformou a própria experiência em um livro, intitulado Jogos de azar: A pandemia silenciosa. A obra aborda os impactos das apostas e busca alertar outras pessoas sobre os riscos da dependência.
O projeto também destaca a possibilidade de recomeçar após perdas profundas. Para Leandro, a experiência que mudou sua vida passou a ter outro significado: servir de alerta e ajudar pessoas que enfrentam situações semelhantes.
A trajetória do escritor mostra que a recuperação pode ser um processo longo, mas que é possível reconstruir a vida com apoio, acompanhamento adequado e disposição para mudar. Sua história também reforça a importância de reconhecer os sinais da dependência e procurar ajuda antes que as consequências se tornem ainda mais graves.
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