Pesquisadores da USP desenvolvem tratamento experimental para lesões na medula espinhal

Foto: CDC/Pexels

Um estudo conduzido por diferentes centros da Universidade de São Paulo aponta um caminho promissor para o tratamento de lesões agudas na medula espinhal. A pesquisa, realizada em ratos, testou a injeção de células da mucosa olfatória no local da lesão e registrou recuperação motora significativa nos animais tratados, que voltaram a andar já na terceira semana do experimento.

A medula espinhal é um tecido de baixa plasticidade, o que torna sua regeneração um dos maiores desafios da neurologia. Hoje, os tratamentos disponíveis se limitam a estratégias de suporte, como medicamentos e fisioterapia, sem nenhum insumo validado capaz de reverter o dano. “Sabemos que é um caminho muito difícil a investigação das lesões medulares, porque ainda não temos, do ponto de vista assistencial, validado para aplicação prática, nenhum insumo material ou terapia que consiga fazer uma reversão das lesões”, afirma Brian Coimbra, autor da tese defendida na Faculdade de Medicina da USP sob orientação do professor Alexandre Fogaça.

A escolha das células da mucosa nasal como possível terapia ganhou impulso a partir de uma observação feita durante a pandemia de covid-19: pacientes que perdiam o olfato após a infecção costumavam recuperar o sentido com o tempo. O fenômeno chamou atenção para as células ectomesenquimais, responsáveis pela regeneração contínua da mucosa olfatória e de fácil obtenção em comparação a outras fontes já testadas, como células do cordão umbilical e da medula óssea.

O experimento envolveu 60 ratos da linhagem Wistar, divididos em cinco grupos e acompanhados por seis semanas após sofrerem lesão medular provocada por um modelo controlado de contusão. Os grupos de controle passaram por procedimentos cirúrgicos de acesso à medula, enquanto os grupos experimentais receberam as células ectomesenquimais, em alguns casos associadas ao matrigel, um composto gelatinoso rico em laminina usado para direcionar as células ao local exato da lesão. O grupo que combinou todas essas técnicas apresentou os resultados mais expressivos.

Em nível molecular, a pesquisa contraria a hipótese inicial de que as células-tronco ocupariam fisicamente o espaço da lesão para restabelecer a condução nervosa. Segundo Coimbra, o mecanismo observado é outro: as células recrutam e geram substâncias que estimulam a regeneração neuronal na região afetada, atuando como catalisadoras do processo em vez de substitutas do tecido perdido.

Os próximos passos da pesquisa envolvem aprofundar a compreensão desses mecanismos moleculares e avaliar a possibilidade de translação do tratamento para humanos, inclusive com vistas ao desenvolvimento de fármacos. O trabalho será publicado em seis artigos científicos, entre eles um destinado ao Global Spine Journal, atualmente em fase final de revisão.

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